quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Comida Japonesa. (ou Sobre a Possibilidade de Escolha)


Hoje eu andei pela cidade, porque graças a Deus estou em férias, e isso me permite - ainda que eu tenha milhares de pequena tarefas pedantes a fazer - circular por aí como quem não conhece relógios.

Passeei pelo centro velho da cidade, o que me dá um enorme prazer; é onde encontro minhas referências de infância - ainda que elas estejam agora permeadas pela degradação nem tão glamourosa de 20 anos atrás.

Passando pelo Shopping Light, resolvi me dedicar ao exercicio futil de ver vitrines... e parei na praça de alimentação pra comer. Como sempre, vi uma variedade gigante de opções, desde as junkie food - sim, agora lá também é possível comer no concorrente do McDonalds , o Burguer King - até as opções mais afrescalhadas e nem por isso mais saudáveis que a boa e velha comida da minha avó.

Dentre elas, escolhi a comida japonesa. Nada de peixe cru, não que eu tenha algo contra, mas escolhi um prato quente que aprecio muito, com frango empanado acompanhado de mais um monte de coisas estranhas e de gosto peculiar das quais não abro mão quando vou a qualquer "JapaFood".

Mas, na verdade o centro desse post não é a comida japonesa. O que me surpreendeu realmente foi a capacidade de me surpreender mais uma vez com a infinita possibilidade de escolha que essa metrópole oferece. Pensei sobretudo, e me surpreendi, com as nossas infinitas possibilidades de escolha na vida em geral.

Daí eu me fiz um questionamento muito profundo: como é possível, em meio a tantas escolhas e possibilidades, se deixar aprisionar dia após dia ao velho lugar comum? Logicamente há por toda parte gente que prefere sempre o mesmo restaurante, o mesmo pedido de sempre, o mesmo bar, o mesmo parque, o mesmo caminho de volta pra casa, o mesmo canal de TV...(e nisso não deixo de ponderar: toda rotina tem sua beleza). Mas quantas vezes nos deparamos com pessoas que tornam sua vida sem graça, sem sal e nem açúcar, pelo simples medo de sair da zona de conforto?

Isso se dá também nos relacionamentos. Quantas vezes não entramos num relacionamento trazendo o nosso mundo e querendo que ele seja aceito e introjetado na vida do outro, sem abrir espaço para o novo e o diferente?

Também pensei que, durante muito tempo, eu achei maravilhoso frequentar cantinas italianas, comer massas, tomar vinho. Mas com o passar do tempo, foi ficando monótono. Não pela rotina, não pela mesmice. Mas pela eliminação do meu poder de escolha. Eu  permiti, durante muito tempo, que se introjetasse em mim um mundo inteiro que não era meu; e deixando meu mundo de lado, com ele  se foram minhas infinitas possibilidades.

Olhei com satisfação para aquele hashi - ainda que me perguntando como diabos um japonês pode passar a vida comendo arroz com aqueles dois pedacinhos de bambu. Fiz alguns malabarismos e não derrubei nada além de uns grãozinhos fora da bandeja e -!!! - o missoshiru  (acidente esse não relacionado ao uso do hashi!!!). Voltei pra casa feliz, porque depois de 7 anos eu pude passar por uma praça de alimentação sem me preocupar com o gosto alheio, somente com o meu, ampliando assim as minhas possibilidades de comer assim ou assado, da forma que me aprouvesse.

E pensei que o que me mataria não seria comer Kara Ague ou Rondelle, no almoço e no jantar, pelo resto dos dias de minha vida. O que me mataria, de verdade, seria perder minhas possibilidades de escolha.


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