"Todas as cartas de amor são ridículas/Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas"
(Fernando Pessoa)
Encontrei, dentro da capa do meu violão, uma carta. Uma carta, vomitada em duas folhas de bloco de papel amarelado, escrita com uma esferográfica Bic preta. Sem produções ou qualquer outro capricho maior. Apenas um monte de palavras distribuidas por linhas semi-tortas.
Na minha adolescência troquei muitas, muitas cartas. Com amigas, com gente de outro país - gente que não cheguei a conhecer - e com meu primeiro namorado. Eram cartas bonitas, bem elaboradas. Muito bem escritas, coloridas, cheias de adesivos, fotografias, perfumes. Letras de músicas. Numa época em que a internet ainda se consolidava como meio de comunicação, eu fazia parte, junto com meus correspondentes, de um grupo de resistência que ainda mantinha vivo o hábito da correspondência pelo papel. Testemunhamos juntos a queda em desuso das cartas como forma de comunicação informal, que vieram a ser substituídas pelo que hoje conhecemos por e-mail.
De todas as cartas que recebi...Todas queimei. Pois considero (assim como fala Rubem Braga sobre conversa entre amigos em "Sobre o Amor, etc.) que cartas falam de mortos. Pois aquela pessoa que me escreveu já não existe mais: embora sendo a mesma pessoa, embora em seu íntimo guarde a lembrança dessas cartas escritas, não é mais a moça espanhola estudante de inglês, não é mais a amiga de ginásio que adorava mitologia, não é mais o garoto apaixonado de 18 anos que sonhava em ser biólogo. Todos continuam, embora vivos, em rumos diferentes e exercendo diferentes papéis sociais. Logo, o que foram, se não existe mais, está morto. E a outra pessoa que as recebeu - no caso eu - também já não existe, de uma vez que modificou-se pelos tantos rios do tempo e igualmente não é mais a adolescente apaixonada estudante de inglês que sonhava ser professora e escritora.
Mas esta carta...esta carta que eu escrevi, e que não chegou ao destinatário...ao lê-la, foi como se suas palavras estivessem escritas em braile, e eu, cegada pelo tempo, pudesse ver, tocando cada uma delas, o meu passado nem tão remoto. Nesse momento infinitas sensações percorreram o meu cérebro, o meu corpo, a minha alma toda, como uma onda de pequenos choques: angústia, vazio, decepção. Pequena amargura e saudade. Eu era convicta de um sentimento alheio que nunca existiu. Eu senti, em cada linha, a noite fria em que a escrevi, senti meu choro, senti o meu desespero, senti a aflição insuportável da espera.
Um pequeno tempo passou. Mais tarde a espera pelo correspondente, cuja carta jamais leu, transformou-se num encontro frio e banal, que nada mais significou além de um "foi bom tê-la conhecido, seja feliz e até mais".
Num ímpeto, tive vontade de resgá-la em mil pedaços. Mas, pensando melhor, decidi guardá-la. De uma vez que esta carta fala de mortos: tanto a pessoa para quem escrevi não existe mais - e talvez nunca tenha existido, tenha sido fruto da minha imaginação ridiculamente romântica, assim como são ridículas as cartas de amor - quanto eu, que morri cada dia um pouco, por vezes sufocando, por vezes deixando agonizar lentamente um sentimento inútil.
Nada há de mal em conservá-la, como um pequeno memorial de paixões frustradas. Como se guarda uma peça de vestuário de quem se foi. Como se conserva alguma coisa arcaia e em desuso que é vista, por todos que passam, como ridícula. Assim como são ridículas todas as cartas de amor.
Cartas de amor só deixam de ser necrológio ridículo quando se vive o que nela se lê...parece óbvio?

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